A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra inaugura, a 21 de outubro, uma exposição que reúne mais de 50 cadernos e arquivos de receitas familiares, muitos deles manuscritos e transmitidos ao longo de várias gerações.
A mostra, intitulada Cadernos de Receitas de Família – Grandes Obras da Literatura Culinária, destaca o papel do papel e da escrita na preservação de memórias, conhecimentos e tradições que atravessaram décadas.
Muito antes da generalização dos meios digitais, os cadernos de receitas constituíam uma forma de registar e transmitir conhecimentos culinários. Escritos à mão, completados ao longo dos anos e, por vezes, partilhados por diferentes membros da família, estes documentos acabaram por preservar não apenas receitas, mas também testemunhos dos hábitos e da vida quotidiana de diferentes épocas.
Entre os exemplares apresentados encontram-se cadernos com receitas escritas por mulheres nascidas ainda no século XIX, documentos construídos a várias mãos e outros que acompanharam famílias em processos de emigração. A sua conservação permite conhecer formas de registo e transmissão de informação que ultrapassam a função original destes objetos.
Um dos exemplos é o de uma mulher ucraniana que chegou a Portugal em 2002 e começou a escrever receitas portuguesas na sua língua materna, acrescentando-lhes receitas de bolos da sogra. O caderno tornou-se, assim, um registo escrito do encontro entre duas culturas alimentares.
“Estes cadernos são muito mais do que coleções de receitas. São verdadeiros arquivos de histórias familiares, escritos sobretudo por mulheres que, sem essa intenção, se tornaram autoras de um património cultural único. Ao dar-lhes visibilidade, estamos também a reconhecer o papel de tantas gerações na construção e transmissão da nossa identidade alimentar”, afirma Carmen Soares, investigadora e coordenadora científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
A exposição está organizada em seis capítulos, numa estrutura inspirada num romance. O percurso apresenta os cadernos enquanto objetos de memória familiar, registos de celebrações, obras coletivas, testemunhos de histórias de vida, presentes e documentos associados a viagens.
Para além da dimensão gastronómica, a mostra chama a atenção para o valor documental dos suportes físicos. Os cadernos manuscritos constituem testemunhos materiais da forma como a informação era organizada, conservada e transmitida no contexto familiar, frequentemente ao longo de várias gerações.
Organizada pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) e pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a exposição dá também visibilidade ao contributo das mulheres na preservação de conhecimentos que, durante muito tempo, circularam sobretudo no espaço doméstico.
A inauguração realiza-se a 21 de outubro, pelas 17h15, na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, onde a exposição poderá ser visitada até 20 de novembro de 2026.