O agravamento da crise entre os Estados Unidos e o Irão está a aumentar a pressão sobre as fábricas de papel reciclado do Golfo, numa altura em que a região continua dependente de matérias-primas importadas e de cadeias logísticas internacionais para manter a produção de papel.

Os sinais mais visíveis surgem no transporte marítimo: o tráfego no Estreito de Ormuz continua muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito e o seguro de guerra mantém custos adicionais de centenas de milhares de dólares por semana, revistos de 48 em 48 horas, segundo a Reuters. Esta pressão logística atinge diretamente um setor que trabalha, em grande medida, com papel recuperado, sobretudo OCC (cartão canelado usado) e outras fibras recicladas compradas no exterior.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) confirma que a base estatística global do setor inclui precisamente a utilização e o comércio de papel recuperado como variável estrutural da indústria papeleira. Já os dados comerciais mostram que a Arábia Saudita continuava a importar papel recuperado em 2024, tendo sido o 3.º maior importador mundial desta categoria, no valor de 95,1 milhões de dólares, segundo o Observatory of Economic Complexity.

No terreno industrial, a exposição é relevante. A MEPCO, um dos principais grupos do setor na Arábia Saudita, reporta uma capacidade anual de 475 mil toneladas nas suas três máquinas de papel em Jidá e mantém uma subsidiária dedicada à recolha e comércio de papel usado, a WASCO, o que mostra a importância estratégica da fibra reciclada para a operação. A empresa planeia ainda uma nova unidade de cartão com capacidade de 400 mil toneladas anuais, sinal de que a procura regional continua suficientemente forte para justificar expansão, apesar da instabilidade.

Do lado da procura, os indicadores disponíveis apontam para um mercado que resiste, pelo menos para já. A Fastmarkets refere que os preços do containerboard reciclado no GCC se mantiveram globalmente estáveis no final de 2025, com procura estável nos Emirados Árabes Unidos e apenas uma desaceleração sazonal na Arábia Saudita. Em abril de 2026, a mesma publicação assinalava que o conflito no Médio Oriente já estava a perturbar rotas de abastecimento e a elevar os custos dos produtores de embalagem, enquanto parte das encomendas era redirecionada para fábricas sauditas devido aos atrasos nas importações.

Há também fatores estruturais a sustentar essa procura. A Bain estima que os Emirados Árabes Unidos registaram cerca de 6% de crescimento em volume no setor dos bens de grande consumo e a Arábia Saudita cerca de 4%, acima da média global, o que ajuda a explicar a resiliência do consumo de embalagens.

No comércio eletrónico, os sinais são igualmente favoráveis: os EUA, através do guia comercial oficial para o país, classificam os Emirados como líder do e-commerce no GCC e apontam para vendas online de 8 mil milhões de dólares até 2025; na Arábia Saudita, dados oficiais citados por canais governamentais indicaram que as vendas de comércio eletrónico através de cartões mada atingiram um máximo mensal histórico de 30,7 mil milhões de riais em outubro de 2025.

Ainda assim, a instabilidade geopolítica está a tornar mais difícil a gestão industrial. A análise publicada pela imprensa setorial e atribuída a Rajasekar Veerichetty, da Al-Jawdah Paper, aponta para subida dos custos de produção por tonelada, devido ao encarecimento do frete, dos prémios de seguro, de químicos, amidos e peças, além de atrasos na chegada de componentes e equipamentos.

Outro fator de risco é a conectividade aérea e a circulação de equipas técnicas. A Reuters documentou reduções e suspensões em voos para destinos como Dubai, Abu Dhabi, Riade, Dammam e Jidá, bem como horários reduzidos por várias companhias aéreas, o que pode dificultar deslocações de especialistas, fornecedores e equipas de manutenção para projetos industriais na região. Isto não prova, por si só, atrasos em cada fábrica de papel, mas reforça a plausibilidade operacional do alerta lançado pela indústria sobre maiores dificuldades na instalação de equipamentos e no apoio técnico internacional.